impronunciavel

22 junho, 2006

Inverno

30 maio, 2006

Repressão- A Polícia Política






A criação e organização da polícia política no regime salazarista implicou uma concentração gradual das funções de prevenção e repressão de crimes políticos numa única instituição, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), que posteriormente será transformada em Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) e, por fim, em Direcção-Geral de Segurança (DGS)
A PVDE, constituída em Agosto de 1933, nasce, em termos imediatos, da fusão e reestruturação de dois corpos policiais anteriores: a Polícia de Defesa Política e Social surgida no início de 1933 - e a Polícia Internacional organizada em 1928. Mas, logo em 1926, fora criado um primeiro organismo com atribuições políticas, a Polícia de Informações. Inicialmente desdobrada em dois organismos autónomos, um em Lisboa, outro no Porto, e tutelada pelos respectivos governadores civis, não tardará, porém, para que, unificada e de âmbito nacional, seja colocada na dependência do ministro do Interior (em Março de 1928).
Encarregue da prevenção e repressão de crimes políticos e sociais, recebe, então, importantes competências de instrução processual no que concerne a tais delitos. E também em 1928 que é organizada a Polícia Internacional, considerada ainda essencialmente como uma polícia de fronteiras (terrestres apenas) e sem funções abertamente políticas. Virá, todavia, a ganhá-Ias em 1931, quando é encarregue da repressão do comunismo e da espionagem. Mas, paralelamente, extingue-se a Polícia de Informações, transferindo formalmente as suas tarefas para a PSP, embora, na prática, ela pareça ter continuado a funcionar.
Em Maio de 1932 reúnem-se pela primeira vez todas as funções de polícia política num único corpo, a Polícia Internacional. Não há, portanto, ainda, uma assunção clara da natureza política deste organismo, ao contrário do que sucede em 1933 quando, após nova separação de funções, é criada a PVDE.
Directamente tutelada pelo ministro do Interior, a PVDE é dotada (em 1933, e por decretos sucessivos nos anos seguintes) de amplas competências e funções que, como sublinhou M. Braga da Cruz, a convertem no centro de um «sistema de justiça política», independente das instâncias judiciais normais. Com efeito, a PVDE congrega atribuições de prevenção e repressão de crimes políticos (sempre descritas de uma forma vaga e abrangente que lhe permite ampla margem de arbítrio) dispondo, nessa matéria, de dois poderes fundamentais sem qualquer controlo judicial: o poder de prender e os poderes de instrução processual. Estes últimos, ainda que legalmente partilhados com o Tribunal Militar Especial, incumbido do julgamento dos crimes políticos no período até 1945, eram, na realidade, quase soberanos, eximindo-se a qualquer fiscalização. O mesmo organismo que prendia, procedia depois às diligências tendentes à incriminação, limitando-se, em geral, o julgamento a ratificar as conclusões policiais, obtidas sobretudo com base no interrogatório dos arguidos, com o recurso sistemático à coacção e à tortura.
A partir de 1934, a PVDE pode, mesmo, através da administração de estabelecimentos prisionais especificamente destinados aos detidos por crimes políticos, superintender no cumprimento das penas e da prisão preventiva, prolongando-as discricionariamente nos moldes considerados mais convenientes. À polícia política cabiam ainda outras competências fundamentais. Destaquem-se o fornecimento de informações de natureza política às várias autoridades públicas; a fiscalização da institucionalização do corporativismo função importante no período até 1945; a colaboração (eminentemente repressiva) com os serviços de censura às publicações; a violação da correspondência e as escutas telefónicas - meio frequente de «investigação». A polícia política detinha ainda funções de vigilância das fronteiras (terrestres, marítimas e, mais tarde, também aéreas) e dos estrangeiros, e atribuições na área da emigração.
Quando, na onda «Iiberalizante» do pós-guerra, a PVDE é substituída pela nominalmente mais neutra PIDE, pouco mudará quanto ao essencial dos seus poderes e funções, embora se tente fazer crer numa maior submissão ao poder judicial.
Com efeito, a PIDE é transformada em organismo de polícia judiciária, segundo o modelo, expressamente invocado, da britânica Scotland Yard. Mas, se é certo que o julgamento dos crimes políticos passa a pertencer aos tribunais criminais plenários, tribunais especiais dependentes do Ministério da Justiça, e algumas prisões políticas passam igualmente a ser geridas por este ministério, a PIDE mantém jurisdição sobre vários estabelecimentos de detenção e conserva inalterados os latos poderes de prisão e de instrução processual da sua antecessora. Mais, pode sugerir a utilização de medidas de segurança como meio de manter indefinidamente presos opositores ao regime, cabendo-lhe mesmo, desde 1954, executá-Ias.
Por outro lado, a duração da prisão sem culpa formada foi dilatada, em 1945, para três meses, passíveis ainda de se prolongar por mais duas etapas de quarenta e cinco dias - legalizando-se, assim, a prisão sem qualquer intervenção judicial, por um período até seis meses, o que equivalia a quase legitimar o livre arbítrio policial. Saliente-se, ainda, que, a partir de 1954 a PIDE vê a sua jurisdição alargada às colónias portuguesas. Quando, em 1969, um regime já no ocaso, e aparentemente preocupado com uma limitação da discricionariedade policial, procede a nova alteração de designações criando a - quase tudo ficará na mesma, pois não há alterações substantivas nos seus poderes e funções, mesmo se parece haver um cuidado maior em defini-los com minúcia (patente na regulamentação da nova organização, feita em 1972).
Uma organização que, quanto à sua estrutura interna, rede nacional e quadro de pessoal parece afastar-se mais dos tempos do começo, tendo registado alguma evolução no sentido de uma especialização e eficácia crescentes. De facto, de início, a PVDE era basicamente constituída por duas grandes secções, em larga medida emanadas das polícias de que procedia: a secção de vigilância ( ou defesa) política e social e a secção internacional, escudadas pelos serviços secretos (ou de informação e ligação) e por um conjunto de serviços de apoio de carácter sobretudo administrativo. À secção de defesa política e social incumbiam as tarefas de vigilância, prevenção e repressão da oposição interna, incluindo funções de investigação, detenção e organização de processos por crimes políticos. O essencial das funções políticas ligadas à administração de estabelecimentos prisionais também caberia a esta secção. Da secção internacional, encarregue sobretudo do controlo das fronteiras e da vigilância dos estrangeiros, dependia a rede de postos da polícia política.
A partir dos anos 40, parece registar-se uma tendência para uma crescente especialização de funções e serviços, no sentido de dotar a instituição de uma estrutura que lhe permitisse uma melhor actuação. Assim, a , ponto de chegada desta evolução, compreendia, segundo legislação de 1969 e 1972, quatro direcções, organizadas em divisões e secções com tarefas mais específicas: a 1.ª Direcção, ou Direcção dos Serviços de Informação; a 2.a Direcção ou Direcção dos Serviços de Investigação e Contencioso (junto da qual funcionava o gabinete nacional da Interpol); a 3.a Direcção ou Direcção dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras; a 4.ª Direcção ou Direcção dos Serviços Administrativos.
Se parece ser notória uma evolução rumo a maior eficiência na organização interna da polícia, a mesma tendência parece detectar-se quanto à sua rede nacional e quanto ao seu pessoal. Os funcionários policiais - ressalvando, evidentemente, esse verdadeiro «segundo quadro» que era o dos informadores - não eram, de facto, muito numerosos, se atendermos à enorme amplitude das funções da polícia política. De um número de cerca de cem, em 1933, terão aumentado para aproximadamente quatrocentos em 1945, sendo sobretudo a partir daí que se efectua um crescimento mais rápido e mais amplo, até aos mais de três mil indivíduos que, em 1974, integravam a .

Globalmente, a rede policial, que, no período até 1945, com escassas excepções (casos do Porto ou de Coimbra), se concentrava, além de Lisboa, ao longo das fronteiras terrestres, terá crescido significativamente, espalhando-se pelo território continental, Madeira e Açores, e colónias (com destaque para Angola e Moçambique).
As debilidades da polícia política a este nível são, porém, manifestas até 1945, pelo menos, tornando indispensável uma estreita colaboração com os outros organismos policiais, com a Legião Portuguesa e com as autoridades distritais e locais. A polícia política funcionava, assim, sobretudo enquanto última instância repressiva, como instrumento de resposta mais forte, destinado a actuar depois de esgotados outros meios, para, ao punir o «prevaricador», desencorajar novos desvios à «ordem», instalando o medo e convidando à resignação. Nesta óptica, a polícia política parece, pois, agir no quadro de uma lógica complementar de prevenção/dissuasão e de punição/repressão, constituindo o último - e mais duro - mecanismo para velar pela segurança do regime, entendida esta numa perspectiva tão abrangente e ambígua quanto sempre extensível e, por isso mesmo, legitimadora de todos os excessos cometidos. E que, se a polícia política não foi nunca um órgão de repressão ou aniquilamento de massas, visando mais o afastamento do que a destruição pura e simples dos opositores reconhecidos (como já sublinharam M. Braga da Cruz e F. Rosas), a sua actuação caracterizou-se pelo uso permanente de meios violentos e por uma continuada e permanente violação da legalidade.
De facto, o recurso à tortura - admitido pelo próprio Oliveira Salazar logo nos primeiros tempos - assumiu um carácter sistemático, constituindo uma forma regular de obter informações para os processos por crimes políticos. Mas as situações mais extremas do arbítrio e violência policiais são os assassinatos cometidos pela polícia política, de que constituem casos emblemáticos os do dirigente comunista «Alex», em 1944, do escultor, também membro do , Dias Coelho, em 1961, e do general Humberto Delgado, em 1965.

In:
Dicionário da História do Estado Novo – Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito

17 maio, 2006

Terá sido inocente??

Xenofobia e desinformação...
15-05-2006
XENOFOBIA E DESINFORMAÇÃO... UMA MENTIRA MIL VEZES REPETIDA NÃO DEIXA DE SER UMA MENTIRA

Estupefacção é a palavra que melhor descreve a reacção à leitura do artigo publicado no jornal Correio da Manhã sob o sugestivo, mas perigoso e injusto, título: IMIGRANTES ENCHEM PRISÕES*.

É absolutamente intolerável a falta de rigor do título e da propalada notícia que mais parece estar inserida numa recente campanha xenófoba generalizada e indiscriminada de ataque directo aos imigrantes que se encontram em Portugal.

É preocupante assistir a este tipo de desinformação e de indução da opinião pública, pois o comum leitor não saberá com certeza que uma significativa parte dos denominados imigrantes que se encontram a cumprir penas de prisão pela prática do crime de tráfico de estupefacientes são cidadãos estrangeiros não residentes em Portugal, ou seja, não são imigrantes.

A objectividade, o rigor e a isenção implicará necessariamente a diferenciação entre o cidadão estrangeiro que imigra para Portugal e aquele que comete um crime quando de passagem por Portugal, como acontece numa grande parte dos casos de tráfico de estupefacientes.

Não é, porém, essa a mensagem que se faz passar no título e na notícia em apreço.

Assim, à semelhança das já lamentadas afirmações de dirigentes do Sindicato dos Profissionais de Polícia, verifica-se aqui a intenção expressa, mas falsa e caluniosa, de associar a imigração à criminalidade, discurso que, por ignorância, má-fé e falta de senso, infelizmente, circula na sociedade portuguesa há bastante tempo.

Lisboa, 11 de Maio de 2006

Rui Elói Ferreira
Vogal da Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados


* Artigo publicado no Correio da Manhã a 11 de Maio de 2006

27 março, 2006

PARA O ALBERTO JOÃO









As Portas Que Abril Abriu


Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raíz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinhiero estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos dos passado
se chamava esse país
Portugal suicidado

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas tabém tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é a força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados "páras"
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer

E em Lisboa capital
dos nosvos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua prórpia pobreza

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo de mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas era olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desbobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabrões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os genarais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
apenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opões àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

Em em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalhos crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pédo Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua prórpia grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viesses ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povro soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser reoubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!


Lisboa, Julho-Agosto de 1975
José Carlos Ary dos Santos - "Obra poética"
Edições Avante

21 fevereiro, 2006

Enterremos o passado


Esta já está no PANTEÃO NACIONAL

























Esta já está na Basílica do Santuário de Fátima













Já só falta este...............

A civilização do crime

Eu sei que para algumas mentalidades judeo-cristãs, sedentas de vingança sobre aqueles que se atrevem ou se atreveram a tocar na divina propriedade, não gostaram de ler esta notícia.
Mas, tenho para mim, que esta é uma verdadeira medida reformadora e, por isso mesmo, corajosa.

16 fevereiro, 2006

Eles comem tudo


"Até pensei que fosse uma ameaça de bomba"
surpresa Judiciária controlou primeiro a segurança e só depois subiu à redacção Ordem para deixar os computadores surgiu de forma imediata

Pouco depois das 12 horas, o jornal "24 Horas", no 5º andar do nº 266 da Avenida da Liberdade, preparava mais uma edição. A direcção reunia para analisar os temas do dia e os jornalistas iam estabelecendo contactos. Ninguém imaginava, no entanto, que à portaria do edifício tinham acabado de chegar elementos da Judiciária e do Ministério Público. in JN


No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com
pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Zeca Afonso

14 fevereiro, 2006

People Are Strange










People Are Strange

People are strange when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked when you're unwanted
Streets are uneven when you're down

When you're strange
Faces come out of the rain
When you're strange
No one remembers your name

When you're strange
When you're strange
When you're strange

People are strange when you're a stranger
Faces look ugly when you're alone
Women seem wicked when you're unwanted
Streets are uneven when you're down

When you're strange
Faces come out of the rain
When you're strange
No one remembers your name

When you're strange
When you're strange
When you're strange

The Doors
 
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